sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Algumas pessoas simplesmente ficam em nós

Se há coisas que não devemos guardar dentro de nós, são sentimentos negativos e pessoas negativos que nos adoecem a alma.

Como diz uma pessoa muito querida, devemos de vez em quando abrir as gavetas velhas e deitar fora o que não interessa, de forma a que o que interessa o que nos é querido tenha mais espaço para brilhar.
Se há pessoas que cruzaram as nossas vidas e nos deixaram marcas, cicatrizes acorrentadas a sentimentos negativos como tristeza, raiva, existem aquelas que nos deixaram sentimentos lindos, lembranças que nos fazem sorrir que abrimos a gaveta e nos deparamos com elas.
Essas pessoas já nao estão nas nossas vidas, mas estão dentro de nós. Partiram. Umas porque terminaram a sua jornada de vida, outras porque os ventos de vida as levaram para longe de nós, e de tantas estradas percorridas, cruzamentos e entroncamentos passados, acabámos por perder o seu rasto, mas deixaram algo de precioso em nós. Acrescentaram-nos, fizeram ver o mundo e as coisas com outro olhar.
Na minha gaveta guardo tantas pessoas assim, que me acrescentaram, que me completaram que me fizeram sorrir e gargalhar e chorar. Devido a elas sou maior.

E o amanhã?

Sempre vivi a minha vida sem pensar no amanhã. Aquele amanhã que leva as pessoas a traçar uma rota, estabelecer objectivos e viver em função disso mesmo. São prisioneiros das suas projecções de um amanhã.
É diferente de viver sem pensar no amanha e ter sonhos, sonhos que espera realizar um dia. A diferença entre não pensar no amanhã e ter sonhos é que não se estabelecem prazos, datas, locais para realizar esses sonhos.
Dos muitos sonhos que tive e que tenho, hoje posso dizer que realizei alguns, outros estou realizando e muitos ainda espero realizar.
Hoje vivo o sonho Angola, um sonho que começou quando ouvia as histórias de saudade de uma amiga que aqui viveu. Através das suas palavras, antes mesmo de pousar o pé em  terras angolanas senti o cheiro desta terra e vi deslumbrada as suas cores. A Angola dela é diferente da minha, porque muito do que ela recorda já não existe. Mas o cheiro da terra molhada continua, as acácias vermelhas continuam a florir.
Sou portuguesa, vivi a maior parte da minha vida em Portugal e no entanto amo Angola. É isso que digo e afirmo mesmo quando me olham com estranheza por eu, europeia, gostar deste país. Não entendem como posso afirmar gostar de um país onde a maioria das vias viárias é caótica e está esburacada, as principais, porque as outras nem a cor de alcatrão conhecem, onde a falta de luz é uma constante (bem melhor se encontra agora), onde a agua para correr na torneira se tem na maioria dos casos de recorrer a camiões cisternas, onde o lixo se amontoa na beira das estradas( bem melhor agora) e nos bairros, onde o sistema de saude é tão precário que a mortalidade infantil atinge limites alarmantes, onde a linha que define os muitos ricos e os muitos pobres é abismal. Mas apesar disso tudo amo este país e sei que se um dia tiver que viver noutro lugar, é aqui que ficará o meu coração.
O ano passado fui a Portugal, matei as saudades de colocar um copo debaixo da torneira e beber agua sem me preocupar em ficar doente, não tive uma unica falha de energia, senti-me mal em deitar para o chão uma beata do cigarro e quando circulei na auto-estrada a caminho de Lisboa, chateei-me imenso por não ter nenhum carro a me ultrapassar pela direita (nem pela esquerda) ou a empatar a velocidade máxima que dei ao carro. A sério que me chateei, tanto que, vendo-me sozinha na autoestrada pus as mãos no volante e comecei a oscila-lo só para não andar tão direitinha.
Viver em Angola, além de ser estimulante a nivel profissional e também a nivel pessoal, pois sinto que em pequenas coisas faço a diferença, é um retrocesso precoce a uma segunda infância. Na minha primeira infância não tinha agua na torneira, nem torneira tinha, não tinha electricidade e gerador acho que nem existia o que tinha mesmo era o candeeiro a petróleo. É certo que não tinha lixo na rua, mas naqueles tempos também não se produzia muito lixo ou o tipo de lixo que hoje é produzido. Também é certo que não havias problemas maiores de saúde a não ser mesmo os que existem ainda hoje em dia, mas também quando acontecia algo a curandeira da aldeia geralmente tratava.
Muito existe por fazer neste país e agrada-me sentir que posso fazer parte deste crescimento, desta evolução. Dentro de mim algo me diz, que é aqui que devo ficar, que é aqui que quero ficar. É o meu sonho. Não quer dizer que seja o meu amanhã, porque neste caso em particular a realização do meu sonho não está só nas minhas mãos.

sábado, 5 de novembro de 2016

Sapatos vermelhos


Pensei em muitos temas para começar o primeiro post deste blog. Todos eles tentando mostrar os meus pensamentos e os meus sentimentos sobre os mais variados assuntos. Mas na base de todos os pensamentos estou eu, uma criatura supostamente pensante. Assim, não há melhor história, no meu entender, do que falar de uns sapatos vermelhos.

Que todos nós em algum momento da nossa vida temos problemas e dificuldades é ponto assente. Os problemas e as dificuldades são sempre das mais diversas naturezas ou causas, dependendo de cada um. Bom, houve um tempo na minha vida em que lutei muito, muito mesmo para manter um trabalho, três filhos e ainda ter tempo para ao fim de semana tirar um curso que me seria de mais valia profissional. Nesse tempo não era mãe solteira, nem viúva, nem divorciada, mas tão pouco era casada, mas esse é outro assunto. Ora bem nesse tempo a prioridade era ter que por na mesa comida para os meus filhos, e por isso mesmo comprar um par de sapatos era sem duvida um gasto supérfluo para mim.
Sempre tive o vicio de ao me sentar cruzar as pernas. O meu cuidado como o de qualquer mulher ao se sentar com uma saia mais curta, não era evitar que se visse mais do que se devia mostrar das coxas, mas sim, evitar e colocar a perna que cruza por cima em tal posição que fosse impossível ver a sola do meu sapato, ou melhor dizendo a metade da sola do meu sapato porque a outra já deixara de existir.
Garanto que era uma posição ingrata e um estado de concentração supremo conseguir conjugar a concentração na posição da perna e pé e ao mesmo tempo absorver as informações dadas pelo professor.
Durante mais de um mês aguentei estoicamente essa posição, até porque devia de agradecer só ter que ter atenção à posição de não mostrar o buraco da sola, porque felizmente não tinha que caminhar em calçada ou estrada com o sapato nesse estado dado que tinha sempre boleia de casa para o curso e vice-versa de uma amiga.
Ao fim desse mês, essa minha amiga começou a aperceber-se do meu desconforto ao me sentar de perna cruzada e acabou por fazer perguntas. Nada lhe disse (estupidamente até porque a uma amiga supostamente devemos confessar as nossas tristezas). Houve um dia em que me pediu para ir com ela a uma loja porque ela precisava de comprar sapatos.
Sapatos?? Loja de sapatos??? Bom vamos lá, não os podes comprar mas pelo menos podes sonhar que os estas a usar- pensei eu.
Naquela altura havia uma sapataria onde o cliente tendo previamente um cartão tipo sócio, podia comprar os sapatos e malas que atingissem o valor do plafond que a loja lhe tinha atribuído e ia pagando mensalmente uma parcela via conta bancária.
Delirei na sapataria toda ela com uma alcatifa fofa pelo chão e tantos e tantos sapatos em exposição. Cores, feitios, com rasos, de salto, botas, sandálias, malas enfim.... meus olhos pousaram num sapatos de salto alto, estilo clássico de cor vermelha. Imaginei-me calçando-os, andando com eles e sentindo uma princesa. Acho que o sonho passou no meu olhar como se fosse uma tela gigante de cinema pelo que a minha amiga me perguntou porque não os levava, que ficariam na conta dela e eu todos os meses lhe pagava a ela (ela sabia das minhas dificuldades financeiras, não sabia era do buraco da sola). Tanto ela insistiu em como me ficariam bem, que após meditar e pensar onde arranjar todos os meses um dinheiro extra para pagar aquele luxo, fiquei convencida. Ok, vou levar. Aí começa outra insistência: mas tens que os provar! Experimenta! Não não é preciso. Vá lá! Não, não posso. Não podes porque? Experimenta!
É aí que baixinho sem a vendedora me ouvir lhe confesso que não os vou experimentar porque assim que descalçasse o meu sapato velho iam ver o buraco na sola do sapato.
Saímos da loja ela com as compras dela e eu com o meu maior tesouro: uns sapatos de salto alto, vermelhos, com cheirinho a couro verdadeiro.
Estávamos em Abril e, quando em Junho os primeiros raios de sol convidavam a irmos à praia, eu continuava reduzida a um par de sapatos. Mas um par de sapatos especiais. Vermelhos, de salto alto, estilo clássico.
Essa mesma amiga insiste um dia em me levar a mim e aos meus filhos à praia. Quando vou a entrar no carro dela ela diz: mas vais para a praia com esses sapatos???? Só tenho estes. Não te preocupes que lá tiro-os.
E tirei-os. Guardei-os junto ao saco de praia e a roupa, minha e dos miúdos. Eles brincavam na areia. O mar estava cheio, agitado com ondas revoltas.
Num dado momento uma onda ganhou mais força, deitou-se pela praia toda, molhando banhistas, toalhas de paria e roupa e sacos pousados na areia.
Vejo-me a correr apanhando os miúdos, as toalhas, os sacos e os meus sapatos que entretanto já tinham recebido o seu banho de mar.
Com a agua salgada deixaram de ser sapatos e viraram algo vermelho retorcido onde a única forma que se impunha era o salto alto.
Já tive muitos sapatos, mas como é hábito se dizer: não há amor como o primeiro!