Pensei em muitos temas para começar o primeiro post deste blog. Todos eles tentando mostrar os meus pensamentos e os meus sentimentos sobre os mais variados assuntos. Mas na base de todos os pensamentos estou eu, uma criatura supostamente pensante. Assim, não há melhor história, no meu entender, do que falar de uns sapatos vermelhos.
Que todos nós em algum momento da nossa vida temos problemas e dificuldades é ponto assente. Os problemas e as dificuldades são sempre das mais diversas naturezas ou causas, dependendo de cada um. Bom, houve um tempo na minha vida em que lutei muito, muito mesmo para manter um trabalho, três filhos e ainda ter tempo para ao fim de semana tirar um curso que me seria de mais valia profissional. Nesse tempo não era mãe solteira, nem viúva, nem divorciada, mas tão pouco era casada, mas esse é outro assunto. Ora bem nesse tempo a prioridade era ter que por na mesa comida para os meus filhos, e por isso mesmo comprar um par de sapatos era sem duvida um gasto supérfluo para mim.
Sempre tive o vicio de ao me sentar cruzar as pernas. O meu cuidado como o de qualquer mulher ao se sentar com uma saia mais curta, não era evitar que se visse mais do que se devia mostrar das coxas, mas sim, evitar e colocar a perna que cruza por cima em tal posição que fosse impossível ver a sola do meu sapato, ou melhor dizendo a metade da sola do meu sapato porque a outra já deixara de existir.
Garanto que era uma posição ingrata e um estado de concentração supremo conseguir conjugar a concentração na posição da perna e pé e ao mesmo tempo absorver as informações dadas pelo professor.
Durante mais de um mês aguentei estoicamente essa posição, até porque devia de agradecer só ter que ter atenção à posição de não mostrar o buraco da sola, porque felizmente não tinha que caminhar em calçada ou estrada com o sapato nesse estado dado que tinha sempre boleia de casa para o curso e vice-versa de uma amiga.
Ao fim desse mês, essa minha amiga começou a aperceber-se do meu desconforto ao me sentar de perna cruzada e acabou por fazer perguntas. Nada lhe disse (estupidamente até porque a uma amiga supostamente devemos confessar as nossas tristezas). Houve um dia em que me pediu para ir com ela a uma loja porque ela precisava de comprar sapatos.
Sapatos?? Loja de sapatos??? Bom vamos lá, não os podes comprar mas pelo menos podes sonhar que os estas a usar- pensei eu.
Naquela altura havia uma sapataria onde o cliente tendo previamente um cartão tipo sócio, podia comprar os sapatos e malas que atingissem o valor do plafond que a loja lhe tinha atribuído e ia pagando mensalmente uma parcela via conta bancária.
Delirei na sapataria toda ela com uma alcatifa fofa pelo chão e tantos e tantos sapatos em exposição. Cores, feitios, com rasos, de salto, botas, sandálias, malas enfim.... meus olhos pousaram num sapatos de salto alto, estilo clássico de cor vermelha. Imaginei-me calçando-os, andando com eles e sentindo uma princesa. Acho que o sonho passou no meu olhar como se fosse uma tela gigante de cinema pelo que a minha amiga me perguntou porque não os levava, que ficariam na conta dela e eu todos os meses lhe pagava a ela (ela sabia das minhas dificuldades financeiras, não sabia era do buraco da sola). Tanto ela insistiu em como me ficariam bem, que após meditar e pensar onde arranjar todos os meses um dinheiro extra para pagar aquele luxo, fiquei convencida. Ok, vou levar. Aí começa outra insistência: mas tens que os provar! Experimenta! Não não é preciso. Vá lá! Não, não posso. Não podes porque? Experimenta!
É aí que baixinho sem a vendedora me ouvir lhe confesso que não os vou experimentar porque assim que descalçasse o meu sapato velho iam ver o buraco na sola do sapato.
Saímos da loja ela com as compras dela e eu com o meu maior tesouro: uns sapatos de salto alto, vermelhos, com cheirinho a couro verdadeiro.
Estávamos em Abril e, quando em Junho os primeiros raios de sol convidavam a irmos à praia, eu continuava reduzida a um par de sapatos. Mas um par de sapatos especiais. Vermelhos, de salto alto, estilo clássico.
Essa mesma amiga insiste um dia em me levar a mim e aos meus filhos à praia. Quando vou a entrar no carro dela ela diz: mas vais para a praia com esses sapatos???? Só tenho estes. Não te preocupes que lá tiro-os.
E tirei-os. Guardei-os junto ao saco de praia e a roupa, minha e dos miúdos. Eles brincavam na areia. O mar estava cheio, agitado com ondas revoltas.
Num dado momento uma onda ganhou mais força, deitou-se pela praia toda, molhando banhistas, toalhas de paria e roupa e sacos pousados na areia.
Vejo-me a correr apanhando os miúdos, as toalhas, os sacos e os meus sapatos que entretanto já tinham recebido o seu banho de mar.
Com a agua salgada deixaram de ser sapatos e viraram algo vermelho retorcido onde a única forma que se impunha era o salto alto.
Já tive muitos sapatos, mas como é hábito se dizer: não há amor como o primeiro!