terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Herança. A culpa é dos mais velhos.

Hoje fiz o que sempre gostei de fazer. A caminho de casa parei num café que costumo frequentar, sentei na esplanada bebendo o meu sumo e observando. Geralmente observo o movimento da rua e perco-me nos meus pensamentos. Hoje, foi daqueles dias em que nem dava para me perder nos meus pensamentos pois entre duas mesas, se debatia algo que me chamou a atenção.
Numa mesa estava o sujeito A, um mais velho que se identificou como sendo angolano nascido no Sambinzanga e com 59 anos. Na mesa ao lado estavam os sujeitos B e C, mais novos que o sujeito A.
A conversa entre eles captou a minha atenção quando oiço os sujeitos B e C a dizerem que a culpa do estado das coisas ser dos mais velhos que lhes passaram essa herança de uma Angola livre mas não lhes ensinaram nada. Que por culpa da guerra estiveram no Bié e fizeram lá 2 filhos, estiveram em Malange fizeram mais 2 e pelo caminho que tomaram deixaram filho em cada província que a guerra lhes levou.
 O sujeito A disse que não era assim, que antes eles não deitavam o lixo para a rua, que se juntavam todos e o bairro era limpo, que foram eles os mais novos que deixaram o estado das coisas chegar ao ponto que chegaram, que se limitam a fazer filhos e não ensinam que o lixo não deve ser deitado no meio da rua junto das casas. Na opinião dos sujeitos B e C, não era assim, os mais velhos não lhes ensinaram nada, não ensinaram como fazer para evitar ter tantos filhos, não lhes ensinaram como tratar do lixo, não lhes deixaram herança nenhuma senão um país livre mas sem que lhes transmitissem ensinamentos.
Mentalmente pensei para comigo que isto é o caso mais antigo da história (aliás o sujeito B identificou-se como um teólogo e historiador) a culpa é sempre dos pais. Tão mais fácil culpar os que estavam atrás ou que estão ou que ficaram atrás. Tão mais fácil culpar quem lhes deu a terra para cultivar. Ok. Sim deu a terra. Mas porque não deixou também as sementes para cultivar? Porque não deixou a terra mexida, fértil para apenas semear? Vamos mais atrás na história porque os culpados não são os que tem 59 ou 60 ou 70 anos. Vamos mais atrás onde o colono (com que não me identifico porque não o fui, conheco alguns que muito fizeram aqui pelo país Angola e também conheci quem nada fez) não devia ter estado em Angola, Vamos ainda mais atrás procurar um culpado. Que tal D. Afonso Henriques que não tinha nada que criar o reino de Portugal. Ou ainda mais atrás a Deus que não tinha que ter colocado no planeta Terra Adão e depois dar-lhe uma Eva (acreditando no que a igreja católica diz).
Diziam os sujeitos B e C que Deus fez Adão e Eva e os colocou na terra como seres racionais. Somos mesmo? Somos mesmo racionais? Existem seres chamados irracionais que defendem mais os da sua espécie que nós racionais. Existem irracionais que acasalam sempre com a mesma fêmea ou macho para toda a vida. Existem seres irracionais que respeitam o seu habitat.
Os irracionais somos mesmo nós! Que não nos respeitamos, que não respeitamos a responsabilidade que temos para connosco mesmo, para com os nossos semelhantes, para com os outros seres, para com o nosso meio ambiente, para com o nosso planeta.
Irracionais são todos os que optam pelo caminho mais fácil como deitar o lixo para o meio da rua ou deixá-lo a apodrecer junto à parede de uma escola em vez andar um pouco até ao contentor mais próximo ou de procurar a melhor forma de se desfazer do mesmo ou de criar o menos lixo possivel.
Irracionais somos todos nós que acasalamos sem pensar que do acasalamento resultam pequenos seres que têm direito a comida, a roupa a educação a estudos quando isso pode ser evitado com os meios que existem (e não me venham falar que os preservativos ou as pilulas só existem há poucos anos pois já o meu avô sabia como fazer).
Irracionais somos todos nós que não nos juntamos e resolvemos os pequenos problemas das nossas ruas ou dos nossos bairros.
Irracionais somos todos nós racionais que não sabemos nem queremos conhecer o verdadeiro significado de que a união pode trazer frutos positivos para todos nós.

Lutas emocionais

Este texto não é meu, é da autoria de uma médica de  uma associação de apoio emocional de jovens e adultos que combatem lutas internas devido às mais diversas situações, mas encontro nele tantas coisas que penso, que vejo e sinto que tinha que o partilhar.

Ficamos adultos na ideia de que ser forte é resistir às tempestades, sem sequer ficarmos doentes. Ensinamos que chorar tem um tempo e que “a vida é mesmo assim”. Uns vivem dentro de um fado maior e outros, sabe-se lá porquê, descobrem uma sorte mais fácil.
Mas a verdade é maior que isso: maior do que nos ensinam os adultos com boas intenções. Os mesmo adultos que sofrem disfarçadamente e que encontram estratégias, bem complexas!, para continuar além das dores e das perdas.
Talvez seja esse mesmo o problema: continuar além. Ninguém nos diz que o truque (a haver!) pode ser continuar por dentro da dor e do que aconteceu. Descobri-la de todas as maneiras: olhá-la, falar dela como parte de nós, descobrir o mais fundo do nosso sentir, descobrir o que a vida nos ensinou a pensar e que afinal guia o nosso comportamento mesmo quando já não é útil, descobrir que também dói o que ficou por viver e por dizer.
Quando vivemos algo impactante, difícil de digerir, isso guarda-se na nossa história. Para sempre. E a nossa história tem um corpo, o nosso, um guião de ideias e emoções que podem ficar muito mal arrumadas e trazer a poeira de novo. Mesmo quando pensamos já ter tudo arrumado dentro das nossas gavetas (e nós somos bons a ter gavetas e baús!).
A quantidade de pequenas e grandes perdas que vivemos é imensa: separações, mudanças de escola e trabalho, perda de amigos, desilusões, perda de expectativas, acidentes, ameaças ao nosso bem-estar e integridade, divórcios, doenças, mortes. Pode ajudar pensar numa corda, onde todos os acontecimentos vão ficando registados. Essa corda vai ficando com nós: a cada acontecimento doloroso (seja qual for) a corda altera-se. Parece difícil desfazer todos os nós e a corda, por muito que queira, já vai sentindo que é difícil cumprir a sua função. Todos esses nós começam a trazer custos.
A experiência de perda é, sem dúvida, omnipresente e a sua dor divide-se em manifestações várias: somáticas, emocionais, cognitivas e comportamentais…. A dor tem três casas onde mora: dentro de nós (intrapessoal), no que fica na relação com os outros que estão longe ou perto (interpessoal) e no que passamos a ler do mundo e do seu sentido (existencial). A dor é difícil de arrumar, teima em aparecer de repente e empurramo-la escondendo a sua existência. Mas quanto mais a escondemos, mais ela se pode intrometer no nosso dia-a-dia. A dor ramifica-se pela nossa vida: um ano depois, dez ou vinte. Quando voltamos a perder alguém, quando sofremos um assalto, quando recebemos más notícias… tudo parece incontrolável e nos enfrenta na desarrumação do passado. Parece tão difícil e cansativo desfazer os nós e tão fácil e rápido reactivá-los.
Não, não somos nós que estamos a fazer alguma coisa mal. Só que o que fazemos (sozinhos) pode não ser suficiente. Não gostamos de nenhuma das palavras que se dizem: recuperar, curar, superar, aceitar, seguir, esquecer… Nada serve. E nós sabemos. Podemos recuperar casas, curar algumas dores no corpo (e bem medicadas!), superar desafios profissionais. Seguir, pois, seja lá isso o que for. Aceitar? Com o pensamento talvez. Dar significados (frases feitas!) e achar que isso basta. Integrar… isso sim. Desejamos integrar tudo: os nós, as dores, as memórias, o que aconteceu e não controlámos, o que ficou por acontecer. Integrar é passar por dentro do que vivemos. Passar por isso num espaço seguro, com alguém especializado, que nos vai ensinar sobre isso e ensinar também os que nos amam.
Integrar é recordar e dar voz, falar do que se viveu incluindo-se na história, sem ser só descrever. Integrar é conseguir olhar lá atrás sem que o corpo fique lá preso e nos dê sinais de falso alarme como se tudo acontecesse de novo. Integrar é apresentar os que morreram aos que estão vivos, sem que isso seja desfazer-se. Integrar é amar de novo e construir nova família sem que a anterior tenha de desaparecer. Integrar é cuidar de todas as partes de nós (as que se culpam, as que temem, as que se alegram, as que se entristecem) sem culpa. Integrar é parar para chorar, para pedir ajuda ou só para ficar em silêncio sem que isso seja desesperante. Integrar não é evitar, para ser suportável, nem é sofrer todos os dias como se a identidade fosse só a dor.
Nós podemos operar alguém, deixar a soro, engessar um braço partido ou transplantar órgãos. Mas não conseguimos fazer nada disso na dor psicológica. Nós só podemos ser corajosos o suficiente para nos conhecermos melhor. 

Pedaço de mau caminho

Na gíria popular, para designarmos alguém que corresponde à perfeição do que para nós individualmente constitui um ideal físico, utilizamos o termo: "pedaço de mau caminho". Assim como se tornou gíria popular em alusão a um anuncio comercial da Coca-Cola que utilizava um modelo masculino em tronco nu a lavar janelas de um escritório: hora da Coca-Cola Light.
Não vim aqui falarmos de ideais físicos masculinos ou femininos. Vim falar sim de Angola.
Angola é sem sombra de dúvida um "pedaço de mau caminho", infelizmente em muitas situações o pedaço de mau caminho é mesmo literalmente, mas não deixa de nos marcar a alma e o coração. Não existem fotografias que expressem a vastidão e a beleza desta terra. O pôr do sol nesta terra nunca tem a mesma cor. Podemos fotografar diariamente o por do sol e as cores são sempre diferentes e em todos os dias ficamos de boca aberta, pasmo com tanta beleza.As fotografias mostram apenas pequenos pedaços de uma imensa vastidão que nos toma conta da alma. As melhores imagens essas ficam sem duvida registadas no nosso coração. Viajamos quilómetros e quilómetros em estradas que em muitos casos são autênticas calamidades para o carro com o perfil do horizonte traçado de montanhas que se nos afiguram longínquas. De tempos a tempos damos conta de pequenas aldeias com meia duzia de cabanas escondidas no meio do arvoredo ou mesmo no meio da terra.
Ocasionalmente encontramos na beira da estrada peqnas bancadas toscas vendendo uns saquinhos de feijão ou fuba ou garrafa de maruvo. Indagamos-nos interiormente como essas pessoas conseguem sobreviver no meio do nada mas do muito quando nem vislumbramos nenhum rio ou riacho. No final da tarde é usual vermos os mais velhos sentados sobre qualquer sombra e as crianças brincando com paus ou pedras.
Nas aldeias mais junto à costa as mulheres e as crianças colocam-se junto à beira da estrada com peixe na mão ou mesmo galinhas esperando que alguém passe e queira comprar. è já nesta altura do dia que nas praias onde os barcos de pesca repousam da faina que não encontramos os homens que entretanto recolheram a casa para descansar ou tratar das redes para um novo dia de pesca.
O engenho e a habilidade das crianças em pegar um pedaço de pau e colocar uma linha e entrarem nas aguas do mar para pescar peixe fascina-me. Positivamente causa-me inveja o que a natureza lhes dá e a forma como a aproveitam. Entram no mar com pau para pesar ou para brincar nas ondas, correm os areais, mergulham, lavam a roupa e seguem as suas vidas. È de causar inveja não haver a responsabilidade de horários, de timings a cumprir. è um viver aproveitando os momentos que se oferecem.
Sei o quanto egoísta pareço falando assim, pois tenho noção das dificuldades porque passam, das necessidades que têm. Uma moeda tem duas faces e este povo, a sua vida é também de duas faces: o desfrute de paisagens de ter o tempo todo do mundo e a dificuldade de ter agua potável, luz, comida e escola para os filhos.
Angola é sem um pedaço de mau caminho que nos encanta. Alguém disse um dia que um caminho pode ter muitas pedras para tropeçarmos. Cabe a todos nós juntar essas pedras e fazer um "castelo".