sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

"Eu sou campeão do mundo da má sorte"

https://www.youtube.com/watch?v=Q6UFJP6Ikjk

"Eu sou campeão do mundo da má sorte
e a minha grande desgraça têm um nome
É o lugar onde os vivos caminham adormecidos
sem sonhos de ordem encantados
que o mundo chama de amores
No eco da graça de uma vergonha gotejada
é uma solidão sem fim à vista"

Passou uma reportagem num canal televisivo português, mais uma sobre Angola. Esta sim considero uma reportagem bem conseguida. Muitas são feitas com repórteres entrevistando crianças não sabendo como falar com uma criança. Outras falam sobre a forma de vida dos expatriados, a sua luxuosa forma de vida, bem longe do que na realidade, nós emigrantes ( e não expatriados) vivemos aqui. Mas não é sobre nós emigrantes que pretendo falar, e sim sobre as crianças de Angola, as crianças de rua. Logo de inicio na reportagem falam o Machado e o Justino, duas crianças que vivem nas ruas de Benguela. Acresce dor ao meu coração ver, e já tenho visto muitas, a cara de uma criança com o peso de vida de uma pessoa de longa idade. Machado e Justino têm dores e têm sonhos. Um quer ser policia, mas um polícia diferente daqueles que lhes enxotam, o outro quer ser médico, para quando estiver no hospital tratar os amigos e as famílias e não lhes cobrar nada. Justino e Machado e os seus companheiros de rua acreditam que as coisas irão mudar, porque Deus é tudo e não é padrasto. A resposta para a pergunta de como é ser criança é viver sem os pais, sem família.
Muitas são as crianças que fogem de casa para fugir aos maus tratos, outras são expulsas de casa acusadas de feitiçaria. Uma lona velha encontrada no lixo, uma caixa, um canto qualquer serve para lhes cobrir do frio da noite. Vivem da caridade de quem lhes dá dinheiro, de engraxar sapatos, de lavar carros. Vivem dos maus tratos de quem se sente incomodado de as ver no seu caminho, ou na insistência de lhes pedirem só 50 para comprar pão.
No tempo da guerra muitas foram as crianças que foram requisitadas e obrigadas pelas diversas forças armadas no país a ir para a guerra. Colocaram-lhes uma arma na mãe e mandaram-nas combater ou servir de escudo às tropas adultas.
Existem ONGs que conseguem ir recolhendo algumas destas crianças de rua, vivendo de donativos de empresas, conseguem garantir com um grande mérito, esforço e dedicação pessoal, um prato de comida, um tecto, roupa e ainda as colocar na escola. Todas as crianças que conseguem ser albergadas nestas ONGs, aprendem um novo conceito de família, em que não é necessário partilhar do mesmo ADN para dividir o pouco que existe para dividir: comida, roupa, material escolar e tarefas.
Continuo a chamar crianças aos que vivem nestas ONGs e às que vivem na rua, quando a sua experiência de vida em termos de provações é tão grande. Para muitas viver na rua é uma questão de sorte. Sorte de chegar ao final do dia sem a policia os ter enxotado, ou os que viram seus carros lavados não as terem maltratado, ou de alguém dar 50 para o pão, ou de recolher no cair da noite sobre um pedaço de lona e haver companheiros mais velhos que os recebem e cuidam de dividir com eles a magra refeição feita ali mesmo no chão de lume.
Felizmente começa-se a ver uma preocupação social particular com este tipo de situação. Vão surgindo doações particulares, mas são insuficientes. È preciso mais e melhor. Muito mais. è preciso que todos nós nos consciencializemos de que temos um papel, uma responsabilidade social com este problema, que não é só de Angola mas do mundo. È preciso que todos nós nos unamos no esforço de os Machados e Justinos deste mundo possam saber e ser crianças.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Ser mãe. Ser avó.

Se já tive tarefas na vida que foram difíceis, foi ser mãe. Independentemente de dizer que nós mulheres temos um relógio biológico que nos desperta para a ansiedade de ser mãe, o que é certo é que a ansiedade e o que vivemos são coisas completamente diferentes. Para ser mãe não se tira curso, nem diploma e mesmo que tenhamos tido uma super mãe, vamos querer fazer ainda melhor com os nossos próprios filhos. Aprendemos a ser mãe ali mesmo "com a mão na massa", vamos lidando e superando, umas vezes sim e outras nem por isso, com esta dificil missão de preparar um ser para a vida. Mais difícil é esta missão quando os valores de hoje, neste mundo em constante mudança, não é o mesmo de amanhã. Mais difícil ainda quando pensamos ter realizado o melhor e, quando os nossos filhos se tornam adultos viram os nossos juízes, opinando sobre a forma como deveriam ter sido educados. E depois além de mães, tornamos-nos avós. E por muito que digam que ser avó é ter a oportunidade de ser mãe outra vez, como em boa consciência podemos ser boas avós se, fomos julgadas quando éramos apenas mães? Depois deste julgamento estamos sempre a tremer pensando se estaremos a fazer um bom trabalho como avós. Li há pouco tempo um estudo que diz que as avós maternas são responsáveis pela maior parte de carga genéticas nas crianças. Segundo esse mesmo estudo, nas netas essa carga genética poderá ser a de problemas de saúde ou de tiques Essa parte preocupa-me lembrando-me que posso ficar marreca como a minha avó materna, mas mais ainda por pensar que a minha neta poderá herdar isso de mim. Aos netos a avó materna transmite, mesmo que com pouco convivência, vivências emocionais, o que me preocupa se penso nas minhas vivências emocionais negativas. Esse mesmo estudo se por um lado desvaloriza a carga genética das avós por sua vez diz que transmitida pelos homens embora inferior também tem mais peso na determinação de transmissão de doenças hereditárias mais complicadas como a diabetes 2 ou a esquizofrenia.
Pesando isto tudo, se tem momentos na minha vida em que penso que como mãe poderia ter agido de outra forma, fico ainda mais preocupada ao saber que mesmo sem querer, sou ou serei culpada de algo que não queria ser.
A tarefa de ser mãe, se já por si é, amor e carinho e a certeza de dar a vida por um filho nosso se necessário, à parte, muito difícil, mais difícil se torna ser avó.

A alegria e simpatia de um povo


Na sequência  da passagem de ano, partimos em busca do primeiro local aberto e disponível para receber mais duas pessoas. No primeiro local que vimos com indicios de festa de fim de ano parámos e perguntámos se ainda aceitavam duas pessoas. A melhor resposta de boas vindas foi: "Até podiam ser 30. São sempre benvindos". Em 25 minutos limitámo-nos ao que restava do bufete: arroz e frango grelhado, e com muita dificuldade conseguimos estar a abrir a garrafa de champanhe as 00h00. Não tinham decorações caras, nem um bufete recheado de iguarias, nem um dj vindo da capital propositadamente para o efeito. Foi tudo feito com a "prata" da casa. A simpatia e a disponibilidade e cuidado em virem sempre junto de nós perguntar se estava tudo bem, se era necessário mais alguma coisa, cativou-nos e transformou aquele inicio de noite em algo mágico.
Na pista de dança, os casais ou aqueles que não precisavam de par, deslizavam na pista ao sabor da musica. Os mais velhos e garbosos da sua postura, mostraram aos mais novos como dançar uma kizomba e fazer a mulher deslizar na pista aceitando ser conduzida pelo macho. Os mais novos, em outros tipos de musica, como o Kuduro e house, mostraram como sabiam dançar. Fascinou-me em particular duas moça, com uma agilidade corporal e uma sintonia entre a musica e os movimentos corporais. Espectáculo lindo de se ver. Outros já atestados demais pela bebida, encaram os ritmos como quase danças tribais, onde os olhos se esvaziaram de tudo que não fosse um qualquer tipo de feitiço musical. Quando saímos, ainda era a noite uma criança para todos quantos lá ficaram, saimos de coração cheio e a sensação de que estamos mais cotas do que os cotas que lá ainda ficaram.
É isso que Angola tem de bom, de lindo, de mágico. Aquela sensação de nos abrirem a porta de casa e do coração, receberem-nos com alegria e com tristeza se despedirem de nós

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Quando a Passagem de Ano muda de hora

Com quatro dias de férias pela frente, uma Passagem de Ano para celebrar decidi rumar a outras paragens para mim ainda desconhecidas, embora com o coração na mão, com receio de o carro vir a reboque.
Voltei a Porto Amboim, até agora uma das minhas vilas de eleição, especialmente pela parte mais velha da cidade que a pouco e pouco se vai reconstruindo, com pouco comércio e uma marginal com alguns bons restaurantes. Foi num desses que tivemos o nosso penultimo almoço de 2016, rumando depois para sul até ao Sumbe. Ao fazer a descida que nos leva à cidade, vemos bastante pobreza, iluminada pela vista da baía. Do Sumbe, tirando a marginal que se encontra mais ou menos em bom estado, todas as ruas estão a necessitar de obras, penso que devido às enxurradas de águas pluviais que descem dos morros. Surpreende-me a forma como em todas as encostas se vê casas de capim e argila e as mesmas ou sofrem obras cada vez que chove ou demonstram ser mais resistentes que as estradas alcatroadas da cidade. A cidade em sim está munida de vários edifícios, alguns em construção de raiz, de serviços estatais.
Depois de procurar alojamento e escolhendo um junto ao mar na marginal, fomos em busca de um local onde celebrar a entrada num novo ano. Foi-nos aconselhado um restaurante bem perto do hotel. Ali tratámos de saber pormenores e ficámos a saber que a compra de ingressos só poderia ser feita no dia seguinte e que a festa começaria às 23 horas, com musica com várias caras de cartaz e churrasco de um boi.
No dia 31, começamos a ver chegar camiões com som e decorações, e durante o resto do dia ouvíamos a testagem do som. Às 23 horas, munidos dos bilhetes previamente comprados apresentamos na recepção do evento trajando de branco conforme era solicitado e foi nos informado que ainda não tinha começado, que estavam a acabar de arrumar as coisas. na recepção viam-se caixas e caixas de Cuca, Tigra, Sprit, pelo que inquiri se as bebidas eram para a festa pois aquela hora era de estranhar não estarem já arrumadas e a refrescar. Fui informada que eram apenas o reforço que as bebidas já estavam no gelo. Pediram que aguardasse mais 10 minutos que a festa já ia começar.
15 minutos depois, voltei à recepção e como tudo se mantinha na mesma acrescido ainda do facto de ver carros a chegar carregados de bancos e outros de sacos de gelo, pedi para chamar o responsável, pois queria a devolução dos valores que já havia pago e ia procurar outro local onde passar o ano.
Quando o dito responsável chegou pasmei com o que ouvi. As pessoas ainda não tinham chegado para a festa, que era mesmo assim, só la para as 2 ou 3 da manha é que iam chegar, que eu aguardasse, mostrou o boi a assar na brasa que ainda estava em sangue pelo que vestígios de jantar na próxima meia hora não me pareceu que acontecesse, que estava tudo a ser preparado e que se ia festejar, que eu aguardasse. Mostrei a minha revolta pois queria jantar mas mais do que isso queria celebrar a passagem do ano às 00h00 e fiquei pasma quando oiço o responsável diser que se iria festejar que se não fosse às 00h00 seria às 01h00 e foi atender outros clientes, indianos, que também reclamavam.
Neste entretanto e após alguma meditação aprendi pelo teor das conversas que ia ouvindo por parte dos responsáveis do evento que isto de querer celebrar mesmo às 00h00 era uma questão de cultura, portanto quem estava errada era eu. De tudo ainda que ouvi, cheguei à conclusão de que a malta de eventos de Luanda que não encontra espaço na capital para este tipo de celebrações decidi ir fazê-los para a provincia, achando-se os maiores por serem da capital, com um bruto som e tal e que os da provincia até deviam estar agradecidos pela sua presença pois estão a levar-lhes cultura, um evento magnifico que ficará para as páginas da história da cidade província. Assim sendo e estando eu em Luanda já a alguns anos, armei-me do mesmo tipo de armas que eles: fotografei a malta ainda a descarregar gelo e bancos, o convite, o local apenas com pessoal da empresa de eventos a arrumar as coisas e chamei novamente o responsável voltando a exigir a devolução dos valores por incumprimento do anunciado: festa com inicio às 23h00. No inicio recusou a devolução, mas quando falei que tinha estado a semana passada em reunião com o Director do Turismo em Luanda e que iria voltar a estar com ele, ( que me perdoe este Director que não tenho o prazer de conhecer pessoalmente mas de quem já ouvi falar) muito renitente ordenou o reembolso das entradas. Partimos e no primeiro local que vimos engalanado para as celebração do Ano, parámos, fomos bem recebidos, ainda conseguimos jantar a correr e engolindo a ultima garfada de comida fomos a tempo de abrir a garrafa de champanhe quando anunciavam 2017!!!
O resto da noite será outra história, muito mais prazeirosa.