terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Orgasmar a vida

Hoje ao passear pelas redes sociais encontrei um post, mais uma imagem, pois há imagens que às vezes dizem tudo, entre o sério e o a brincar. De inicio achei engraçado, uma forma diferente de pedir a quem gostamos que nos agite a vida.
Isso levou-me a alguns pensamentos um pouco mais profundos.
Temos pessoas que fazem parte da nossa vida e que são tipo uma moínha num dente, andam por ali a incomodar e vamos deixando assim como vamos adiando uma vida ao dentista. Outras no entanto têm a habilidade de nos agitar a vida, dando-lhe cores mais vibrantes. A essas enquadra-se este termo"orgasma-me a vida".
Mas o pior são aquelas pessoas que nem são moínha num dente e que vamos deixando andar ali a moer, nem nos orgasmam-me a vida. São aquelas que se orgasmam a si mesmas, dançando à nossa volta, pensando que nos estão a orgasmar e nós ficamos naquela de esperar o orgasmo sempre benvindo que nos arrebata, até que cansamos e dizemos: Ai foi tão bom! só para nos livrarmos daquele orgasmo individual e egoista de quem pensa e acha que nos está a dar prazer e no final só nos está a aborrecer.
A essas pessoas que se orgasmam pensando que nos estão a levar ao delirio, temos mesmo de deixar de fingir, temos de deixar de dizer"humm foi tão bom" e simplesmente dizer: porra já te orgasmaste? Pois olha que eu não, nem chegaste ao meu ponto B quanto mais ao G!
Precisamos sim de pessoas que nos orgasmem a vida, que nos levem ao delirio, que nos vibrem em cores e sons e sorrisos e abraços e carinho e ternura e gargalhadas e momentos intimos de silêncio onde as palavras não cabem porque os gestos nos confortam a alma.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Ser mãe imperfeita

Se a mais antiga profissão do mundo é ser prostituta, a mais dificil profissão do mundo é ser mãe.
Não falo das dores sofridas ou não para os dar à luz, nem das noites mal dormidas, nem da nossa aflição quando dão uma queda ou ficam doentes e nos sentimos impotentes e incompetentes. Ser mãe é uma profissão para a qual não estudamos, não temos disciplinas que nos ensinem como fazer. Para a profissão de mãe não existe aquele livro que a minha tia me deu, de capa vermelha e letras douradas para me ajudar a ser dona de casa exemplar: A Mulher na Sala e na Cozinha. Ser mãe a gente aprende ali no duro, no batente de serviço de 24 sobre 24 horas. Vivemos uma vida de corre corre entre a ama ou o infantário ou a escola, a limpeza da casa, a lavagem da roupa, a nossa profissão, as brigas de irmãos, os ranhos que escorrem, as birras de não querer comer. Cada uma de nós mulheres que foi mãe, poucas vezes ou nenhumas segue o mesmo tipo de "ser mãe" das nossas próprias mães. Sentimos que devemos de agir de forma diferente e assim deve ser porque o mundo evolui, a realidade evolui e as crianças de hoje dificilmente poderão ser educadas como as de ontem. Temos a capacidade de ser o numero de mães que corresponde a cada filho que se tem, porque um filho é unico e especial e não é pelo facto de terem o mesmo ADN de mãe e pai que são iguais a seus irmãos, pelo que amamos a todos intensamente mas a cada um de forma diferente.
Neste mundo de hoje, aonde a realidade virtual supera a que se vive dentro de cada casa, de cada familia, vejo muitos posts ou publicações do tipo: A minha mãe é a melhor mãe do mundo! Como é que uma mãe pode ser a melhor mãe do mundo se não existe um padrão de medida para se ser a melhor mãe? O melhor aluno atinge nota 20, a melhor modelo tem aquelas medidas certinhas que consoante a época e os estilistas vão mudando, mas para ser mãe não tem medida nem nota. Porque mãe se adapta à época, ao dia a dia, aos filhos, a tudo. Ser mãe é crescer juntamente com os filhos e com eles. E quando eles crescem e se tornam adultos, olhamos para o que vão conquistando, para as suas realizações, ficamos felizes e orgulhosos quando superam as nossas expectativas e tristemente continuamos a amá-los intensamente mesmo quando erram.
Cada mulher que se torna mãe, forma-se e doutora-se mãe conforme pode, age certo tantas vezes e errado eventualmente outras tantas, porque mãe não é um ser super perfeito. Como filha, quantas vezes não me queixei da minha própria mãe. Achava eu, no alto da minha sabedoria que ela podia ter dado mais, mais carinho, mais conversa, compreensão, mais roupa, mais brinquedo. Hoje aprendi uma outra forma de amar a minha mãe, sabendo que ela me deu o que pode e o que soube dar e que foi muito mais que outras filhas  de outras mães tiveram.É certo que mãe é aquela que sabe amar e educar e não necessita de passar por um parto para ser mãe. Mas nós filhas, que nos queixamos de nossas mães e pensamos que as mães das nossas amigas foram melhores que as nossas deviamos de olhar para aquelas filhas que foram vendidas e escravizadas pelas suas próprias mães,  que foram colocadas na rua para roubar ou se virarem sózinhas, que foram abandonadas ou deixadas dias e dias ao abandono porque suas mães estavam se drogando e prostituindo. Aí realmente, vemos que não temos de que nos queixar, que os motivos que nos levam a pensar que podiamos ter recebido mais são tão mesquinhos, tão pequeninos. Que realmente podemos não ter tido a mãe que desejavamos mas tivemos na nossa vida uma mulher que lutou para nos dar à luz, nos dar de comer, nos colocar a estudar, vestir e calçar e que essa mulher não foi perfeita mas foi o melhor que conseguiu ser e esse melhor foi nosso e será sempre nosso.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Lágrima contida

Estamos a entrar naquela altura do ano em que o cansaço é extremo e os sentimentos andam à flor da pele. Reune-se todas as já cansadas energias para terminar todos os trabalhos e sentir com orgulho e satisfação que fizemos a nossa parte, que cumprimos se não todos os objectivos estabelecidos, pelo menos a sua maior parte  e aí sim, estar prontos para celebrar mais uma quadra natalicia.
Mesmo sentindo que o Natal em Angola não é a mesma coisa que na nossa terra, porque nos falta o principal: a família toda reunida, o frio de nos enregelar os ossos, as cidades enfeitadas, os espaços comerciais repletos de clientes, de decorações e de White Christmas no ar, conseguimos entrar em "modo Natal".
Ao entrar ou em vésperas de entrar em modo Natal, estamos mais permeáveis a emoções que no stress do dia a dia nem deixamos transparecer.
Engolindo lágrimas de desespero por tentar fechar o ano profissionalmente com a qualidade com que nos empenhamos durante todos os meses anteriores, engulo lágrimas por ouvir uma criança dizer: tia tenho fome. Engulo lágrimas por aquele que gatinha pela terra por não conseguir andar, engulo lágrimas pelo que rebusca no lixo algo que colocar na boca.
E todas essas lágrimas eu engulo ou disfarço, porque os que me motivam as lágrimas conseguem no entanto sorrir.
Um dia meu coração será feito de apenas lágrimas e minha alma meio completa.

Maior ingratidão: a mentira

Quem nunca pecou que atire a primeira pedra. Todos nós já mentimos uma vez pelo menos na vida. Nem que seja aquela mentirinha insignificante que no fundo não prejudica nenhum e também não beneficie ninguém. Por vezes utilizamos a mentira para nos protegermos ou preservamos o nosso estado de alma ou espírito, como naqueles dias em que tudo nos corre mal, nos sentimos um caco e nos perguntam se estamos bem. A nossa resposta é sem duvida dizer que estamos bem, não vamos partilhar com um conhecido sentimentos que estão fervilhando dentro de nós e nos colocam em cacos. É uma mentira inocente.
O que a mim me custa e não suporto é a mentira usada para se sair favorecido de uma situação e em particular mentir-se a quem nos ajudou.
Quando ajudamos ajudamos de coração puro, sem pensar em obter algo em troca da ajuda prestada. E nesse espírito estamos sempre dispostos a ajudar, nada pedindo em troca a não ser a verdade e a honestidade.
Retribuírem
com mentira é a maior ingratidão.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Quero aprender a não stressar

Quero aprender a não stressar. Juro que quero. Acho que deve ser o melhor estado de alma e de espirito.
Entrámos na época da chuva e de muito calor. Se a chuva nos ensopa, o calor nos ensopa também em suor, sendo uma benção os espaços com ar condicionado.
Há duas semanas atrás choveu e não foram aquelas chuvas torrenciais que transformam estradas em autênticos rios de lama que o ano passado que inundaram a casa. Lembro-me de ir no carro numa estrada minimamente me bom estado para onde convergiam outras de terra e ter que contornar em marcha lenta uma viatura na estrada que estava avariada. isso permitiu que eu observasse numa dessas estradas de terra uma viatura ligeira de tamanho pequeno cuja roda da frente passar por cima de uma poça de agua, sendo que afinal a poça não era poça mas sim um buraco o que fez o carro ter ficado com a frente enterrada. O que me espantou e ao mesmo tempo me fez ter a consciência de que stresso é que o dono da viatura, havia saído do carro e mesmo ali tinha uma zungueira a vender cerveja, o que lhe levou ficar observando calmamente o carro com a frente enterrada no buraco e a beber calmamente a sua  cerveja.
Esta semana, num desses caminhos de terra parti o terminal de direcção do meu carro, pelo que a frente dele aterrou completamente no caminho. Valeu-me o facto de estar perto do local de trabalho e pedir ajuda para me virem resolver o problema do carro. Com a situação fiquei o que se pode dizer de cabelos em pé de tanto stress.
È esta uma das muitas coisas que este país tem de bom. Não há stress. Não há maka. Até mesmo quando vemos as pessoas a ficarem alteradas e perguntamos qual o problema a resposta é: Não há maka.
Quero mesmo aprender a não stressar. Quero mesmo aprender a não ter maka mesmo quando tenho problema para resolver.

Essa coisa dificil de uma relação a longo prazo

Quando nós começamos uma relação com outra pessoa e as coisas se tornam sérias porque o sentimento é forte, mantemos no entanto sempre uma certa postura de comportamento, até porque existe algo que se chama intimidade pessoal, individual.
Podemos até nos ir habituando à roupa espalhada pela casa fora do cesto da roupa suja, à lata de Coca-cola que ficou em cima do móvel ou a garrafa de cerveja vazia em cima da mesa quando podia estar no caixote do lixo. Mas há coisas que penso não nos habituarmos nunca.
Há dias em conversa com uma amiga sobre os nossos respectivos obtive mais ou menos este cenário - transmitido pela minha imaginação - da sua relação de já longo prazo.
No inicio da relação, num restaurante, ou mesmo em casa quando a ele lhe surgia um arroto, coisa perfeitamente normal de quem se sente saciado, havia o cuidado de colocar o guardanapo em frente da boca, dar o dito cujo e pedir perdão como mandam as regras da boa educação. Quando começaram a partilhar a mesma cama ele tinha o cuidado de se levantar e ir ao Wc soltar os gases.
O cenário hoje em dia é, em plena mesa, comer, beber e soltar o arroto tendo a habilidade, a destreza de conseguir ir buscá-lo lá bem no fundo e fazê-lo soar como um troar de clarinete cujo som se arrasta ou ainda como aquele momento em que os céus mandam uma trovoada e se ouvem nitidamente o troar dos relâmpagos seguidos alternando entre pequenos e grandes até terminar naquele ribombar enorme como se tivesse caido junto de nós. È certo que ele continua a dizer: perdão. Ao menos isso.
Na parte dos gases antigamente soltados em privacidade no WC, aí o cenário é bem pior. São muitas as noites em que ela tem que fugir da cama acordada pela explosão que eclode a seu lado, ou pelo cheiro nauseabundo que a faz pensar que fossa entupiu e a porcaria está espalhada por toda a sua casa. São soltadas autênticas bombas com a maior satisfação e gozo, pois a gargalhada é presente sempre neste cenário. Aliás segundo ouvi, a intensidade dos mesmos e mesmo o cheiro é partilhado por ele e a sua própria família como se fosse a maior festa de que houve memória.
Quando ele vai para o WC para evacuar, acho que o faz de porta aberta, pelo que para ela é completamente audivel o troar de tambores e tambores, ficando imobilizada imaginado que a sanita não irá aguentar tanta pressão e irá rebentar. Missão impossivel utilizar o Wc na próxima meia hora para ela.
Realmente uma relação a longo prazo é feita de muita partilha e vivência, mas na minha opinião há certas coisas que fazem parte da nossa própria privacidade individual que não deve ser partilhada com a nossa cara metade.

Gosto de gente que vai lá e faz

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Sou daquelas pessoas que quando é para fazer vai lá e faz. Não importa o que. E se não faço rasgo-me toda por dentro durante muito tempo por não o ter feito. Existe aquele tipo de pessoa que pensa, repensa e fala da ideia que teve. Ideia de construir algo, de tomar uma acção com outrém, de remodelar, de inovar. O tempo passa e essa pessoa continua a pensar, a planear e a falar do que quer fazer. Mas, porra que não levanta o cu e vai lá e faz.
Se essa pessoa faz parte do circulo de pessoas que me rodeiam, então podem crer, ela pensa, ela, planeia e ela fala. Quando ela volta a pensar, a planear e a falar, aí...canso. Agarro e vou lá e faço e depois "trepo as paredes" de raiva quando me diz: hum se tivesse sido feito antes daquela outra maneira, teria sido melhor.
Cresci a ouvir: não deixes para amanhã o que podes fazer hoje!
Para mim não dá, se é para fazer...FAZ. Se é para dizer...DIZ.
Acredito que o grande parte do mal mundial é mesmo o facto de muitos pensarem, planearem mas se acomodarem em suas cadeiras e nada fazerem esperando que alguém vá fazer o trabalho por elas.
Já chega! Vai lá e faz sim???

Não procure a felicidade onde a perdeu

Resultado de imagem para paraisosO que nos faz feliz? Pessoas, coisas, lugares. Uma pessoa pode nos fazer feliz para a vida inteira ou talvez não. Um lugar onde nos sentimos feliz dificilmente será um lugar a abandonar. A "coisa" que nos faz feliz dificilmente nos deixaremos afastar dela. Existe em nós a necessidade imperiosa de nos sentirmos felizes. Como também existe em nós o sentimento de por vezes sentir que não somos felizes o suficiente, que poderíamos ser ainda mais felizes. E aí partimos em busca da 4ª e 5ª essência da felicidade. Vamos avidamente em busca de um sentimento que felicidade que nos transcenda, que nos rebente o coração a alma e as entranhas. Estabelecemos patamares mais elevados e partimos em busca do que sentimos que nos falta, para depois em muitos casos, olharmos para trás e sentirmos que afinal houve um momento, um lugar uma pessoa que nos fez mais feliz que nos sentimos agora. E quem de nós decide voltar atrás ao lugar ou à pessoa que nos transmitiu essa felicidade constatamos tristemente que já não sentimos aquela mesma felicidade intensa que havíamos sentido. Porquê? porque quando partimos em busca de algo mais, algo dentro de nós mudou, acrescentámos experiências e sentimentos à nossa própria essência e esse lugar ou essa pessoa que nos deu essa felicidade também mudou. E nada mais volta a ser igual. Por isso quando nos sentimos felizes, aproveitemos, estimulemos o crescimento dessa felicidade, porque se partimos em busca do que pensamos mais além estar a felicidade, dificilmente voltaremos a encontrar a felicidade onde a deixámos.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Algumas pessoas simplesmente ficam em nós

Se há coisas que não devemos guardar dentro de nós, são sentimentos negativos e pessoas negativos que nos adoecem a alma.

Como diz uma pessoa muito querida, devemos de vez em quando abrir as gavetas velhas e deitar fora o que não interessa, de forma a que o que interessa o que nos é querido tenha mais espaço para brilhar.
Se há pessoas que cruzaram as nossas vidas e nos deixaram marcas, cicatrizes acorrentadas a sentimentos negativos como tristeza, raiva, existem aquelas que nos deixaram sentimentos lindos, lembranças que nos fazem sorrir que abrimos a gaveta e nos deparamos com elas.
Essas pessoas já nao estão nas nossas vidas, mas estão dentro de nós. Partiram. Umas porque terminaram a sua jornada de vida, outras porque os ventos de vida as levaram para longe de nós, e de tantas estradas percorridas, cruzamentos e entroncamentos passados, acabámos por perder o seu rasto, mas deixaram algo de precioso em nós. Acrescentaram-nos, fizeram ver o mundo e as coisas com outro olhar.
Na minha gaveta guardo tantas pessoas assim, que me acrescentaram, que me completaram que me fizeram sorrir e gargalhar e chorar. Devido a elas sou maior.

E o amanhã?

Sempre vivi a minha vida sem pensar no amanhã. Aquele amanhã que leva as pessoas a traçar uma rota, estabelecer objectivos e viver em função disso mesmo. São prisioneiros das suas projecções de um amanhã.
É diferente de viver sem pensar no amanha e ter sonhos, sonhos que espera realizar um dia. A diferença entre não pensar no amanhã e ter sonhos é que não se estabelecem prazos, datas, locais para realizar esses sonhos.
Dos muitos sonhos que tive e que tenho, hoje posso dizer que realizei alguns, outros estou realizando e muitos ainda espero realizar.
Hoje vivo o sonho Angola, um sonho que começou quando ouvia as histórias de saudade de uma amiga que aqui viveu. Através das suas palavras, antes mesmo de pousar o pé em  terras angolanas senti o cheiro desta terra e vi deslumbrada as suas cores. A Angola dela é diferente da minha, porque muito do que ela recorda já não existe. Mas o cheiro da terra molhada continua, as acácias vermelhas continuam a florir.
Sou portuguesa, vivi a maior parte da minha vida em Portugal e no entanto amo Angola. É isso que digo e afirmo mesmo quando me olham com estranheza por eu, europeia, gostar deste país. Não entendem como posso afirmar gostar de um país onde a maioria das vias viárias é caótica e está esburacada, as principais, porque as outras nem a cor de alcatrão conhecem, onde a falta de luz é uma constante (bem melhor se encontra agora), onde a agua para correr na torneira se tem na maioria dos casos de recorrer a camiões cisternas, onde o lixo se amontoa na beira das estradas( bem melhor agora) e nos bairros, onde o sistema de saude é tão precário que a mortalidade infantil atinge limites alarmantes, onde a linha que define os muitos ricos e os muitos pobres é abismal. Mas apesar disso tudo amo este país e sei que se um dia tiver que viver noutro lugar, é aqui que ficará o meu coração.
O ano passado fui a Portugal, matei as saudades de colocar um copo debaixo da torneira e beber agua sem me preocupar em ficar doente, não tive uma unica falha de energia, senti-me mal em deitar para o chão uma beata do cigarro e quando circulei na auto-estrada a caminho de Lisboa, chateei-me imenso por não ter nenhum carro a me ultrapassar pela direita (nem pela esquerda) ou a empatar a velocidade máxima que dei ao carro. A sério que me chateei, tanto que, vendo-me sozinha na autoestrada pus as mãos no volante e comecei a oscila-lo só para não andar tão direitinha.
Viver em Angola, além de ser estimulante a nivel profissional e também a nivel pessoal, pois sinto que em pequenas coisas faço a diferença, é um retrocesso precoce a uma segunda infância. Na minha primeira infância não tinha agua na torneira, nem torneira tinha, não tinha electricidade e gerador acho que nem existia o que tinha mesmo era o candeeiro a petróleo. É certo que não tinha lixo na rua, mas naqueles tempos também não se produzia muito lixo ou o tipo de lixo que hoje é produzido. Também é certo que não havias problemas maiores de saúde a não ser mesmo os que existem ainda hoje em dia, mas também quando acontecia algo a curandeira da aldeia geralmente tratava.
Muito existe por fazer neste país e agrada-me sentir que posso fazer parte deste crescimento, desta evolução. Dentro de mim algo me diz, que é aqui que devo ficar, que é aqui que quero ficar. É o meu sonho. Não quer dizer que seja o meu amanhã, porque neste caso em particular a realização do meu sonho não está só nas minhas mãos.

sábado, 5 de novembro de 2016

Sapatos vermelhos


Pensei em muitos temas para começar o primeiro post deste blog. Todos eles tentando mostrar os meus pensamentos e os meus sentimentos sobre os mais variados assuntos. Mas na base de todos os pensamentos estou eu, uma criatura supostamente pensante. Assim, não há melhor história, no meu entender, do que falar de uns sapatos vermelhos.

Que todos nós em algum momento da nossa vida temos problemas e dificuldades é ponto assente. Os problemas e as dificuldades são sempre das mais diversas naturezas ou causas, dependendo de cada um. Bom, houve um tempo na minha vida em que lutei muito, muito mesmo para manter um trabalho, três filhos e ainda ter tempo para ao fim de semana tirar um curso que me seria de mais valia profissional. Nesse tempo não era mãe solteira, nem viúva, nem divorciada, mas tão pouco era casada, mas esse é outro assunto. Ora bem nesse tempo a prioridade era ter que por na mesa comida para os meus filhos, e por isso mesmo comprar um par de sapatos era sem duvida um gasto supérfluo para mim.
Sempre tive o vicio de ao me sentar cruzar as pernas. O meu cuidado como o de qualquer mulher ao se sentar com uma saia mais curta, não era evitar que se visse mais do que se devia mostrar das coxas, mas sim, evitar e colocar a perna que cruza por cima em tal posição que fosse impossível ver a sola do meu sapato, ou melhor dizendo a metade da sola do meu sapato porque a outra já deixara de existir.
Garanto que era uma posição ingrata e um estado de concentração supremo conseguir conjugar a concentração na posição da perna e pé e ao mesmo tempo absorver as informações dadas pelo professor.
Durante mais de um mês aguentei estoicamente essa posição, até porque devia de agradecer só ter que ter atenção à posição de não mostrar o buraco da sola, porque felizmente não tinha que caminhar em calçada ou estrada com o sapato nesse estado dado que tinha sempre boleia de casa para o curso e vice-versa de uma amiga.
Ao fim desse mês, essa minha amiga começou a aperceber-se do meu desconforto ao me sentar de perna cruzada e acabou por fazer perguntas. Nada lhe disse (estupidamente até porque a uma amiga supostamente devemos confessar as nossas tristezas). Houve um dia em que me pediu para ir com ela a uma loja porque ela precisava de comprar sapatos.
Sapatos?? Loja de sapatos??? Bom vamos lá, não os podes comprar mas pelo menos podes sonhar que os estas a usar- pensei eu.
Naquela altura havia uma sapataria onde o cliente tendo previamente um cartão tipo sócio, podia comprar os sapatos e malas que atingissem o valor do plafond que a loja lhe tinha atribuído e ia pagando mensalmente uma parcela via conta bancária.
Delirei na sapataria toda ela com uma alcatifa fofa pelo chão e tantos e tantos sapatos em exposição. Cores, feitios, com rasos, de salto, botas, sandálias, malas enfim.... meus olhos pousaram num sapatos de salto alto, estilo clássico de cor vermelha. Imaginei-me calçando-os, andando com eles e sentindo uma princesa. Acho que o sonho passou no meu olhar como se fosse uma tela gigante de cinema pelo que a minha amiga me perguntou porque não os levava, que ficariam na conta dela e eu todos os meses lhe pagava a ela (ela sabia das minhas dificuldades financeiras, não sabia era do buraco da sola). Tanto ela insistiu em como me ficariam bem, que após meditar e pensar onde arranjar todos os meses um dinheiro extra para pagar aquele luxo, fiquei convencida. Ok, vou levar. Aí começa outra insistência: mas tens que os provar! Experimenta! Não não é preciso. Vá lá! Não, não posso. Não podes porque? Experimenta!
É aí que baixinho sem a vendedora me ouvir lhe confesso que não os vou experimentar porque assim que descalçasse o meu sapato velho iam ver o buraco na sola do sapato.
Saímos da loja ela com as compras dela e eu com o meu maior tesouro: uns sapatos de salto alto, vermelhos, com cheirinho a couro verdadeiro.
Estávamos em Abril e, quando em Junho os primeiros raios de sol convidavam a irmos à praia, eu continuava reduzida a um par de sapatos. Mas um par de sapatos especiais. Vermelhos, de salto alto, estilo clássico.
Essa mesma amiga insiste um dia em me levar a mim e aos meus filhos à praia. Quando vou a entrar no carro dela ela diz: mas vais para a praia com esses sapatos???? Só tenho estes. Não te preocupes que lá tiro-os.
E tirei-os. Guardei-os junto ao saco de praia e a roupa, minha e dos miúdos. Eles brincavam na areia. O mar estava cheio, agitado com ondas revoltas.
Num dado momento uma onda ganhou mais força, deitou-se pela praia toda, molhando banhistas, toalhas de paria e roupa e sacos pousados na areia.
Vejo-me a correr apanhando os miúdos, as toalhas, os sacos e os meus sapatos que entretanto já tinham recebido o seu banho de mar.
Com a agua salgada deixaram de ser sapatos e viraram algo vermelho retorcido onde a única forma que se impunha era o salto alto.
Já tive muitos sapatos, mas como é hábito se dizer: não há amor como o primeiro!