É diferente de viver sem pensar no amanha e ter sonhos, sonhos que espera realizar um dia. A diferença entre não pensar no amanhã e ter sonhos é que não se estabelecem prazos, datas, locais para realizar esses sonhos.Dos muitos sonhos que tive e que tenho, hoje posso dizer que realizei alguns, outros estou realizando e muitos ainda espero realizar.
Hoje vivo o sonho Angola, um sonho que começou quando ouvia as histórias de saudade de uma amiga que aqui viveu. Através das suas palavras, antes mesmo de pousar o pé em terras angolanas senti o cheiro desta terra e vi deslumbrada as suas cores. A Angola dela é diferente da minha, porque muito do que ela recorda já não existe. Mas o cheiro da terra molhada continua, as acácias vermelhas continuam a florir.
Sou portuguesa, vivi a maior parte da minha vida em Portugal e no entanto amo Angola. É isso que digo e afirmo mesmo quando me olham com estranheza por eu, europeia, gostar deste país. Não entendem como posso afirmar gostar de um país onde a maioria das vias viárias é caótica e está esburacada, as principais, porque as outras nem a cor de alcatrão conhecem, onde a falta de luz é uma constante (bem melhor se encontra agora), onde a agua para correr na torneira se tem na maioria dos casos de recorrer a camiões cisternas, onde o lixo se amontoa na beira das estradas( bem melhor agora) e nos bairros, onde o sistema de saude é tão precário que a mortalidade infantil atinge limites alarmantes, onde a linha que define os muitos ricos e os muitos pobres é abismal. Mas apesar disso tudo amo este país e sei que se um dia tiver que viver noutro lugar, é aqui que ficará o meu coração.
O ano passado fui a Portugal, matei as saudades de colocar um copo debaixo da torneira e beber agua sem me preocupar em ficar doente, não tive uma unica falha de energia, senti-me mal em deitar para o chão uma beata do cigarro e quando circulei na auto-estrada a caminho de Lisboa, chateei-me imenso por não ter nenhum carro a me ultrapassar pela direita (nem pela esquerda) ou a empatar a velocidade máxima que dei ao carro. A sério que me chateei, tanto que, vendo-me sozinha na autoestrada pus as mãos no volante e comecei a oscila-lo só para não andar tão direitinha.
Viver em Angola, além de ser estimulante a nivel profissional e também a nivel pessoal, pois sinto que em pequenas coisas faço a diferença, é um retrocesso precoce a uma segunda infância. Na minha primeira infância não tinha agua na torneira, nem torneira tinha, não tinha electricidade e gerador acho que nem existia o que tinha mesmo era o candeeiro a petróleo. É certo que não tinha lixo na rua, mas naqueles tempos também não se produzia muito lixo ou o tipo de lixo que hoje é produzido. Também é certo que não havias problemas maiores de saúde a não ser mesmo os que existem ainda hoje em dia, mas também quando acontecia algo a curandeira da aldeia geralmente tratava.
Muito existe por fazer neste país e agrada-me sentir que posso fazer parte deste crescimento, desta evolução. Dentro de mim algo me diz, que é aqui que devo ficar, que é aqui que quero ficar. É o meu sonho. Não quer dizer que seja o meu amanhã, porque neste caso em particular a realização do meu sonho não está só nas minhas mãos.
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