"Eu sou campeão do mundo da má sorte
e a minha grande desgraça têm um nome
É o lugar onde os vivos caminham adormecidos
sem sonhos de ordem encantados
que o mundo chama de amores
No eco da graça de uma vergonha gotejada
é uma solidão sem fim à vista"
Passou uma reportagem num canal televisivo português, mais uma sobre Angola. Esta sim considero uma reportagem bem conseguida. Muitas são feitas com repórteres entrevistando crianças não sabendo como falar com uma criança. Outras falam sobre a forma de vida dos expatriados, a sua luxuosa forma de vida, bem longe do que na realidade, nós emigrantes ( e não expatriados) vivemos aqui. Mas não é sobre nós emigrantes que pretendo falar, e sim sobre as crianças de Angola, as crianças de rua. Logo de inicio na reportagem falam o Machado e o Justino, duas crianças que vivem nas ruas de Benguela. Acresce dor ao meu coração ver, e já tenho visto muitas, a cara de uma criança com o peso de vida de uma pessoa de longa idade. Machado e Justino têm dores e têm sonhos. Um quer ser policia, mas um polícia diferente daqueles que lhes enxotam, o outro quer ser médico, para quando estiver no hospital tratar os amigos e as famílias e não lhes cobrar nada. Justino e Machado e os seus companheiros de rua acreditam que as coisas irão mudar, porque Deus é tudo e não é padrasto. A resposta para a pergunta de como é ser criança é viver sem os pais, sem família.
Muitas são as crianças que fogem de casa para fugir aos maus tratos, outras são expulsas de casa acusadas de feitiçaria. Uma lona velha encontrada no lixo, uma caixa, um canto qualquer serve para lhes cobrir do frio da noite. Vivem da caridade de quem lhes dá dinheiro, de engraxar sapatos, de lavar carros. Vivem dos maus tratos de quem se sente incomodado de as ver no seu caminho, ou na insistência de lhes pedirem só 50 para comprar pão.
No tempo da guerra muitas foram as crianças que foram requisitadas e obrigadas pelas diversas forças armadas no país a ir para a guerra. Colocaram-lhes uma arma na mãe e mandaram-nas combater ou servir de escudo às tropas adultas.
Existem ONGs que conseguem ir recolhendo algumas destas crianças de rua, vivendo de donativos de empresas, conseguem garantir com um grande mérito, esforço e dedicação pessoal, um prato de comida, um tecto, roupa e ainda as colocar na escola. Todas as crianças que conseguem ser albergadas nestas ONGs, aprendem um novo conceito de família, em que não é necessário partilhar do mesmo ADN para dividir o pouco que existe para dividir: comida, roupa, material escolar e tarefas.
Continuo a chamar crianças aos que vivem nestas ONGs e às que vivem na rua, quando a sua experiência de vida em termos de provações é tão grande. Para muitas viver na rua é uma questão de sorte. Sorte de chegar ao final do dia sem a policia os ter enxotado, ou os que viram seus carros lavados não as terem maltratado, ou de alguém dar 50 para o pão, ou de recolher no cair da noite sobre um pedaço de lona e haver companheiros mais velhos que os recebem e cuidam de dividir com eles a magra refeição feita ali mesmo no chão de lume.
Felizmente começa-se a ver uma preocupação social particular com este tipo de situação. Vão surgindo doações particulares, mas são insuficientes. È preciso mais e melhor. Muito mais. è preciso que todos nós nos consciencializemos de que temos um papel, uma responsabilidade social com este problema, que não é só de Angola mas do mundo. È preciso que todos nós nos unamos no esforço de os Machados e Justinos deste mundo possam saber e ser crianças.

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