terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Pedaço de mau caminho

Na gíria popular, para designarmos alguém que corresponde à perfeição do que para nós individualmente constitui um ideal físico, utilizamos o termo: "pedaço de mau caminho". Assim como se tornou gíria popular em alusão a um anuncio comercial da Coca-Cola que utilizava um modelo masculino em tronco nu a lavar janelas de um escritório: hora da Coca-Cola Light.
Não vim aqui falarmos de ideais físicos masculinos ou femininos. Vim falar sim de Angola.
Angola é sem sombra de dúvida um "pedaço de mau caminho", infelizmente em muitas situações o pedaço de mau caminho é mesmo literalmente, mas não deixa de nos marcar a alma e o coração. Não existem fotografias que expressem a vastidão e a beleza desta terra. O pôr do sol nesta terra nunca tem a mesma cor. Podemos fotografar diariamente o por do sol e as cores são sempre diferentes e em todos os dias ficamos de boca aberta, pasmo com tanta beleza.As fotografias mostram apenas pequenos pedaços de uma imensa vastidão que nos toma conta da alma. As melhores imagens essas ficam sem duvida registadas no nosso coração. Viajamos quilómetros e quilómetros em estradas que em muitos casos são autênticas calamidades para o carro com o perfil do horizonte traçado de montanhas que se nos afiguram longínquas. De tempos a tempos damos conta de pequenas aldeias com meia duzia de cabanas escondidas no meio do arvoredo ou mesmo no meio da terra.
Ocasionalmente encontramos na beira da estrada peqnas bancadas toscas vendendo uns saquinhos de feijão ou fuba ou garrafa de maruvo. Indagamos-nos interiormente como essas pessoas conseguem sobreviver no meio do nada mas do muito quando nem vislumbramos nenhum rio ou riacho. No final da tarde é usual vermos os mais velhos sentados sobre qualquer sombra e as crianças brincando com paus ou pedras.
Nas aldeias mais junto à costa as mulheres e as crianças colocam-se junto à beira da estrada com peixe na mão ou mesmo galinhas esperando que alguém passe e queira comprar. è já nesta altura do dia que nas praias onde os barcos de pesca repousam da faina que não encontramos os homens que entretanto recolheram a casa para descansar ou tratar das redes para um novo dia de pesca.
O engenho e a habilidade das crianças em pegar um pedaço de pau e colocar uma linha e entrarem nas aguas do mar para pescar peixe fascina-me. Positivamente causa-me inveja o que a natureza lhes dá e a forma como a aproveitam. Entram no mar com pau para pesar ou para brincar nas ondas, correm os areais, mergulham, lavam a roupa e seguem as suas vidas. È de causar inveja não haver a responsabilidade de horários, de timings a cumprir. è um viver aproveitando os momentos que se oferecem.
Sei o quanto egoísta pareço falando assim, pois tenho noção das dificuldades porque passam, das necessidades que têm. Uma moeda tem duas faces e este povo, a sua vida é também de duas faces: o desfrute de paisagens de ter o tempo todo do mundo e a dificuldade de ter agua potável, luz, comida e escola para os filhos.
Angola é sem um pedaço de mau caminho que nos encanta. Alguém disse um dia que um caminho pode ter muitas pedras para tropeçarmos. Cabe a todos nós juntar essas pedras e fazer um "castelo".




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