Numa mesa estava o sujeito A, um mais velho que se identificou como sendo angolano nascido no Sambinzanga e com 59 anos. Na mesa ao lado estavam os sujeitos B e C, mais novos que o sujeito A.
A conversa entre eles captou a minha atenção quando oiço os sujeitos B e C a dizerem que a culpa do estado das coisas ser dos mais velhos que lhes passaram essa herança de uma Angola livre mas não lhes ensinaram nada. Que por culpa da guerra estiveram no Bié e fizeram lá 2 filhos, estiveram em Malange fizeram mais 2 e pelo caminho que tomaram deixaram filho em cada província que a guerra lhes levou.O sujeito A disse que não era assim, que antes eles não deitavam o lixo para a rua, que se juntavam todos e o bairro era limpo, que foram eles os mais novos que deixaram o estado das coisas chegar ao ponto que chegaram, que se limitam a fazer filhos e não ensinam que o lixo não deve ser deitado no meio da rua junto das casas. Na opinião dos sujeitos B e C, não era assim, os mais velhos não lhes ensinaram nada, não ensinaram como fazer para evitar ter tantos filhos, não lhes ensinaram como tratar do lixo, não lhes deixaram herança nenhuma senão um país livre mas sem que lhes transmitissem ensinamentos.
Mentalmente pensei para comigo que isto é o caso mais antigo da história (aliás o sujeito B identificou-se como um teólogo e historiador) a culpa é sempre dos pais. Tão mais fácil culpar os que estavam atrás ou que estão ou que ficaram atrás. Tão mais fácil culpar quem lhes deu a terra para cultivar. Ok. Sim deu a terra. Mas porque não deixou também as sementes para cultivar? Porque não deixou a terra mexida, fértil para apenas semear? Vamos mais atrás na história porque os culpados não são os que tem 59 ou 60 ou 70 anos. Vamos mais atrás onde o colono (com que não me identifico porque não o fui, conheco alguns que muito fizeram aqui pelo país Angola e também conheci quem nada fez) não devia ter estado em Angola, Vamos ainda mais atrás procurar um culpado. Que tal D. Afonso Henriques que não tinha nada que criar o reino de Portugal. Ou ainda mais atrás a Deus que não tinha que ter colocado no planeta Terra Adão e depois dar-lhe uma Eva (acreditando no que a igreja católica diz).
Diziam os sujeitos B e C que Deus fez Adão e Eva e os colocou na terra como seres racionais. Somos mesmo? Somos mesmo racionais? Existem seres chamados irracionais que defendem mais os da sua espécie que nós racionais. Existem irracionais que acasalam sempre com a mesma fêmea ou macho para toda a vida. Existem seres irracionais que respeitam o seu habitat.
Os irracionais somos mesmo nós! Que não nos respeitamos, que não respeitamos a responsabilidade que temos para connosco mesmo, para com os nossos semelhantes, para com os outros seres, para com o nosso meio ambiente, para com o nosso planeta.
Irracionais são todos os que optam pelo caminho mais fácil como deitar o lixo para o meio da rua ou deixá-lo a apodrecer junto à parede de uma escola em vez andar um pouco até ao contentor mais próximo ou de procurar a melhor forma de se desfazer do mesmo ou de criar o menos lixo possivel.
Irracionais somos todos nós que acasalamos sem pensar que do acasalamento resultam pequenos seres que têm direito a comida, a roupa a educação a estudos quando isso pode ser evitado com os meios que existem (e não me venham falar que os preservativos ou as pilulas só existem há poucos anos pois já o meu avô sabia como fazer).
Irracionais somos todos nós que não nos juntamos e resolvemos os pequenos problemas das nossas ruas ou dos nossos bairros.
Irracionais somos todos nós racionais que não sabemos nem queremos conhecer o verdadeiro significado de que a união pode trazer frutos positivos para todos nós.
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